
Túnel Noel Rosa, vazio, no sábado, dia 17, às 12:10h. Foto: Guillermo Planel
Na última semana o Morro dos Macacos, na Zona Norte do Rio de Janeiro, foi palco de confrontos entre traficantes e entre policiais e traficantes. No meio do fogo cruzado, moradores da localidade. Nos jornais, as notícias de que os moradores de Vila Isabel, bairro onde fica localizado o Morro dos Macacos, estavam em pânico, que não dormiam e que tiveram sua rotina alterada com o tiroteio próximo de suas casas. Em muitos casos, os moradores do Morro dos Macacos não são lembrados. Parece que para eles não existem problemas com o barulho, que não se assustam com os tiroteios no local e que o dia-a-dia permanece o mesmo.
O Observatório Notícias & Análises entrevistou dois moradores de Vila Isabel para saber sobre a situação de violência na localidade e suas percepções acerca dos acontecimentos recentes. Um deles é morador da Rua Visconde de Santa Isabel e o outro morador da Rua Senador Nabuco (Morro dos Macacos). Noemi é pedagoga e ministra aulas no Centro Comunitário Lídia dos Santos. Já Faber Araújo é professor do Colégio Pedro II.
Como foi a madrugada do dia 17 de outubro (dia de início dos conflitos no Morro dos Macacos)?
Noemi Gomes – Foi uma noite de terror. Nós não dormimos, nem as crianças. E o pior é que foi numa sexta-feira, dia em que as pessoas saem de casa à noite, tem muita gente na rua. Muitos não puderam voltar, dormiram na rua e foram direto para o trabalho. Até 10 horas da manhã ninguém podia sair de casa, fiquei refém do meu próprio lar.
Faber Araújo – Por volta das duas horas da manhã começaram os tiros, que permaneceram até o início da manhã. Nessa noite não dormi por conta do barulho. Às cinco e meia levantei para ir para o trabalho e saí de casa ainda escutando tiros. Só me dei conta do que estava acontecendo no Colégio, com os alunos comentando o que escutaram nas rádios ou viram na TV. Minha esposa que mora há 22 anos no local não se lembra de ter escutado algo assim por lá.
Como foi a semana que se seguiu ao dia 17?
Noemi – Durante toda a semana, sexta-feira dia 23 de outubro foi o primeiro dia sem a polícia, sem o “caveirão” pelas ruas. Isso significa que foi o primeiro dia sem tensão, quando as pessoas começaram a sair de casa.
Faber – Depois de sábado não ouvi mais barulho de tiros. A sensação que eu tive é de que a polícia apenas interveio na parte da manhã do sábado. Quando eu voltei do trabalho às 16 horas, já não tinha mais nada. O que mudou é que em todas as entradas para o Morro dos Macacos havia um carro da polícia. Não sei até que ponto havia uma ocupação da comunidade ou se era apenas para transmitir segurança para a população. Fato é que hoje tem mais policiamento nas ruas.
O seu dia-a-dia foi alterado?
Noemi - Tivemos a rotina toda alterada. Durante toda a semana as pessoas deixaram de frenquentar cursos, ir à escola, passear. No sábado dia 17 foi aniversário do meu filho e não veio quase ninguém. Eu deixei de ir no curso de informática que faço à noite, de ir à igreja. No domingo dia 18 as crianças iriam para o evento Rio Sou Criança, na Apoteose, mas a atividade acabou sendo adiada por causa da situação aqui.
Faber – Só no final de semana que, apesar de sábado à tarde já estar relativamente tranquilo, fiquei receoso de sair à noite e na volta ter alguma dificuldade de voltar para casa. Mas no geral meu dia-a-dia continua o mesmo, continuo indo na rua, passeando com meu cachorro. Minha rotina não mudou
Como está a situação agora?
Noemi – A partir de sexta, dia 23, estamos voltando à rotina normal, as pessoas estão voltando a fazer suas atividades à noite, as crianças voltaram a frequentar os cursos. Mesmo com as escolas abertas, as crianças não iam. Essa semana elas já voltaram a frequentar as aulas, algumas pessoas que estavam na casa de parentes estão voltando pra casa.
Faber - Depois de sábado não percebi mais nada. O que soube foi pela imprensa, falando que moradores saíram do Morro, que estavam com dificuldades de voltar para casa.