Direitos Humanos - 31/08/2009 17:27
Tem lésbica na favela
Por Rosilene Miliotti

Grupo Conexão G. foto: Rosilene Miliotti/Imagens do Povo
Grupo Conexão G. foto: Rosilene Miliotti/Imagens do Povo
Em celebração ao dia da visibilidade lésbica no dia 29 de agosto, vários eventos preencheram a agenda de grupos LGBTs (Lésbicas, gays, bissexuais e transsexuais) na cidade do Rio de Janeiro. No conjunto de favelas da Maré não foi diferente. O grupo Conexão G realizou no último sábado 29 o evento "Tem mulher lésbica na favela".

O presidente do Conexão G, Gilmar Santos, diz que o objetivo do evento foi marcar uma conquista, entendendo que com essa atividade toda a população LGBT ganha mais espaço na sociedade. "Nós poderíamos marcar o dia fazendo um seminário e chamar pessoas para falarem sobre homossexualidade, homofobia e até sobre as lésbicas, mas preferimos fazer um evento como esse, com parceiros como a Ação Comunitária do Brasil que está fazendo a trança dagô e as Mulheres da Paz, além dos colaboradores do Conexão G que estão distribuindo camisinhas femininas e masculinas, ensinando como usar, além de distribuir cartilhas sobre a tuberculose. Todas as pessoas que passam pela rua, mesmo que não participe do evento, podem vir e pegar o preservativo. Queremos que a comunidade nos veja, venha e usufrua dessa ação", explica Gilmar.

A coordenadora do evento e representante do grupo de lésbicas da Maré, Jéssica Andrade, diz que se descobriu lésbica aos 14 anos, mas só contou para os pais aos 17. Ela conta que no início foi complicado, mas que “hoje é diferente, meu pais me tratam muito bem e levo minha namorada para minha casa sem problemas". Jéssica também falou que “existem muitas meninas que são lésbicas na favela, mas não se assumem por causa dos pais, principalmente as que têm pais que frequentam alguma igreja”.

Jéssica lidera o grupo de lésbicas na Maré que funciona como um grupo focal. Elas se reúnem e passam para ela quais são suas necessidades. Elas não se reúnem na sede do Conexão G porque algumas não podem assumir ainda que são lésbicas, ou seja, é um grupo oculto. Gilmar diz que “poucas  têm o posicionamento de dizerem ‘sou lésbica sim, e daí?’. As lésbicas são mais retraidas".

Sobre a percepção de que as lésbicas são masculinizadas, Gilmar diz que apenas 20% delas são assim, e 80% mantém sua feminilidade. “Não necessariamente as lésbicas precisam perder sua vaidade e sua feminilidade", aponta Gilmar.

O casal Ana Paula e Dandara. Foto: Rosilene Miliotti/Imagens do Povo
O casal Ana Paula e Dandara. Foto: Rosilene Miliotti/Imagens do Povo
Lésbicas se assumem

Dandara Couto, 20 anos, moradora da Maré, se assumiu lésbica há dois anos e até hoje está com a amiga que agora é sua companheira. As duas moram juntas e tem planos de adotar uma criança. "Nos conhecemos no trabalho. No início foi difícil, meus pais e os dela não gostaram, mas hoje a mãe dela me chama de filha e a minha mãe a trata da mesma forma", conta.

A rotina do casal inclui almoço em família aos domingos. "Sempre almoçamos juntas na casa da mãe de uma ou da outra", conta a jovem que fala que para conquistar essa liberdade houve muita luta, "foram dois anos muito sofridos para conquistar essa estabilidade familiar". Dandara diz que uma das primeiras coisas que a mãe dela perguntou foi se ela não teria netos.

"Temos sonhos igual a qualquer casal hétero, até ano que vem teremos nossa casa própria e depois que a mobiliarmos adotaremos uma criança. Outra coisa é que somos lésbicas, mas não perdemos nossa feminilidade. Adoro me vestir bem, cuidar do cabelo, das unhas...”.

Héteros apóiam  iniciativa do grupo
Moradores que passavam pela rua onde fica a sede do Conexão G, na Nova Holanda, paravam e perguntavam o que estava acontecendo. Alguns eram conhecidos de membros do grupo e paravam para pegar preservativo e fazer trança dagô nos cabelos. Além da Ação Comunitária do Brasil, o grupo de Mulheres da Paz, que atua na Maré, também participou do evento.

"Muitas pessoas falam que não têm preconceito, mas têm sim. Eu vim e represento o Mulheres da Paz porque sei da luta do Conexão G e acho que os grupos que atuam na Maré tem mais é que se unir. O Conexão G é g de gay e g de gente", diz Marilene Ferrinha, uma das Mulheres da Paz. “Minha filha me perguntou se os integrantes do Conexão G estavam felizes. Acredito que seja isso que importa, se as pessoas estão felizes do jeito que são. E achei bacana ela me perguntar isso".

Sobre o Conexão G
Criado em 2006 através da iniciativa de Gilmar Santos, atual presidente do grupo, o Conexão G inicialmente construiu um espaço de encontro para jovens homossexuais para difusão de informação e reflexão sobre seus direitos e experiências, buscando lutar contra preconceitos e discriminações. “Hoje, além de garantir este espaço de encontro para o diálogo e articulação política, promovemos ações cotidianas de prevenção às DSTs e Aids com moradores, realizamos oficinas educativas sobre sexualidade, diversidade sexual e temas transversais em diferentes comunidades populares, promovendo visibilidade da questão LGBT em favelas e bairros da periferia, além de destacar as múltiplas violências às quais esta população está submetida”, afirma Gilmar.

 

 

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