Editorial - 08/07/2009 11:15
Paz sem voz é medo

Na última semana de junho foi amplamente divulgado um evento previsto para acontecer no domingo, dia 28 do mesmo mês, no Morro Santa Marta, favela em Botafogo, na Zona Sul do Rio de Janeiro. O convite chamava para uma roda de funk, que começaria às 16 horas em uma praça do morro. O material de divulgação informava que o objetivo do encontro era “chamar atenção para a proibição das manifestações de cultura popular, impossibilitadas de acontecer desde o início da ocupação do morro pela polícia”. Na sexta-feira, dia 26, dois dias antes do evento, a organização foi comunicada que a roda de funk havia sido proibida pela polícia.

Convite da Roda de Funk que foi cancelada
Convite da Roda de Funk que foi cancelada
A roda de funk que não aconteceu no Santa Marta foi organizada pela Associação de Profissionais e Amigos do Funk (ApaFunk) e militantes do movimento Funk é Cultura. Eles vêm organizando eventos nesse estilo há pelo menos um ano e a roda já passou por universidades, diversas comunidades e até na Central do Brasil, no Centro do Rio. Promover uma roda de funk, aliada a outros elementos da cultura dos espaços populares, como o grafite e apresentações de break, foi uma das formas que aqueles que vêm lutando pelo reconhecimento do funk como expressão cultural, encontraram para se manifestar e promover o ritmo.

A roda prevista para acontecer no Santa Marta, entretanto, tinha um objetivo mais específico do que levar adiante a luta que vem sendo conduzida por MC’s e militantes. Lá, como bem explicitava o convite, a intenção era se manifestar contra proibições que vêm sendo impostas em favelas recém ocupadas por forças policiais. Semanas antes, o movimento havia feito o mesmo na Cidade de Deus, comunidade ocupada de forma semelhante.

Em declarações dadas a jornais, o comandante do 2º Batalhão da PM (Botafogo) disse que a roda foi proibida porque não é permitida a realização de bailes naquela região. O comandante só não levou em conta que o que havia sido planejado para acontecer no Santa Marta não era um baile funk, mas sim um encontro entre artistas e moradores, à tarde, gratuito, sem fins lucrativos, numa praça e ao som de funk, mas também de rap e o que mais surgisse.

A proibição imposta no Santa Marta nos remete à pior face do Estado, a do autoritarismo e da discriminação. Como imaginar uma cidade diferente e a consolidação de novas sociabilidades quando a polícia proíbe manifestações da cultura popular? Como concretizar o exercício da cidadania se o próprio Estado promove ações que inviabilizam a superação de estereótipos?

Os acontecimentos no morro contradizem as afirmações de “promoção da cidadania” e “pacifismo” tão presentes no discurso que permeia as recentes incursões policiais no Rio de Janeiro. Cabe ao Estado repensar este tipo de atuação e a todo o resto da sociedade a tarefa de não admitir que fatos como esses se repitam. Se o desejo de todos é uma cidade una, de paz e transformada, apenas através da intervenção unificada dos sujeitos é que será possível construí-la, não por meio do medo ou da opressão.

 

 

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